Quem somos


O Mundo transforma-se a uma velocidade estonteante.

Mudou a forma como nos relacionamos, como aprendemos. Não deveria mudar também a forma como ensinamos? Que tipo de cidadãos precisamos de formar para fazer face a um futuro que desconhecemos?

São cada vez mais os professores, pais e alunos que colocam a si próprios estas questões, e sentem no seu dia-a-dia a necessidade de mudança.

Aqui ficam os seus manifestos e relatos de boas práticas...

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Centros de Estudo - Um luxo ou uma necessidade? (Inês Barão Neves)


Centro de Estudos – Um luxo ou uma necessidade?

                  “Stora, dói-me a cabeça”, “Stora, o meu  joelho está a deitar sangue”, “Stora, posso ligar à minha mãe?”…. Para os professores que trabalham no seu dia-a-dia num Centro de Apoio ao Estudo, estes pedidos fazem parte da rotina. São na sua maioria alunos de segundo ou terceiro ciclo que todos os dias dependem de nós para receber apoio, orientação e cuidados na tarefa diária que é Crescer!
                  São tantos atualmente os pais que se veem limitados em disponibilidade horária  e mental para estar com as suas crianças, que esta sociedade vê os profissionais de educação tornarem-se responsáveis não só por instruir e orientar mas também por ouvir, acompanhar, educar, nutrir, curar… “Stora, hoje esqueci-me do lanche”, “Stora, hoje na escola um colega fez um grande disparate e foi para a rua”, “Hoje gozaram comigo e eu fiquei mesmo irritado…”.
Aprender a organizar o tempo, aprender como se estuda, como se mantém os cadernos e materiais em bom estado e a matéria em dia, como é importante verificar as datas das avaliações e os trabalhos de casa diários… Estas são algumas das muitas tarefas de um professor de apoio escolar, mas não para por aí. Dentro e fora das Salas de Estudo, a relação com os alunos torna-se particularmente familiar e a empatia não pode ficar de parte.
Há centros que se assemelham a “casas da Avó”, outros que parecem recreios e outros centros desportivos. Todos, ao seu estilo, conseguem gerir, melhor ou pior, o apoio aos desafios escolares e apoio às necessidades pessoais e específicas de cada um. Adaptar a pedagogia às particularidades do aluno é algo instintivo num professor. Não podemos apresentar uma página ou duas de exercícios a um aluno que mostra resistência em estudar (um exercício de cada vez e acabará por fazê-los todos…). Para alunos agitados, estudar matemática ou línguas numa aplicação digital é uma das melhores opções. Para outros, fazer pequenos intervalos é imperativo. Aos alunos que gostam de aprofundar conteúdos, por seu turno, dar-lhe-emos um manual de estudo e sabemos que eles daí retirarão toda a informação que precisam e ainda selecionam e realizam as tarefas propostas.
                  Sabemos que o bem-estar e o equilíbrio são absolutamente essenciais para o foco e concentração necessárias à aprendizagem. É nossa missão assegurá-los, dentro das nossas possibilidades,  nem que para isso tenhamos que oferecer, regularmente, sessões de mindfulness. É preciso insistir com uns para que deem o seu melhor e se motivem nos resultados; é preciso refrear outros para que o cansaço não lhes retire o prazer de ser criança (que ainda são).
                  Quando nas escolas continuam a existir turmas com 26 alunos (ou mais), onde não é fácil fazer esta individualização, o papel dos Centros de Estudo continua a ser, para muitos alunos, complementar na consolidação de conteúdos que se avolumam nos programas curriculares. Para muitos pais, este apoio continua a ser imprescindível no acompanhamento escolar e pessoal dos seus filhos, que levam, já cansados, ao final do dia, para casa “com os TPCs feitos e a matéria estudada para o teste” (pelo menos até termos garantido horários de trabalho flexíveis para um dos pais, tal como já acontece em alguns países europeus).
                  Apesar disto, esta relevância é inversamente proporcional à importância que o Estado lhes atribui: máxima taxa de imposto de valor acrescentado e falta de reconhecimento como despesa de educação, em declaração de IRS. Falta também garantir regulamentação pedagógica e empreender estudos que comprovem os benefícios e garantam que estes Centros de apoio à Família e à Escola não constituem um luxo de uma minoria, mas sim uma necessidade de muitos, onde a aprendizagem formal e informal ocorre todos os dias.

Inês Barão Neves
Centro de Estudos Pé Direito

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O Efeito da Música (Marcos L. Souza)


A MÚSICA COMO TERAPIA NO AMBIENTE ESCOLAR SOCIAL E HOSPITALAR

 Dentre várias pesquisas que fiz dentro do campo vasto que é a música, coloco aqui em destaque um assunto a ser abordado que é o uso da música como remédio natural para várias doenças do corpo, alma e espírito. Como a ciência já comprovou, a música pode ajudar em  muito no tratamento de vários tipos patológicos de doenças, principalmente aquelas ligadas a ansiedade e stress. Além de ser de fácil acesso para quem precisa, o custo do tratamento chega a ser zero. Quero aqui destacar um artigo que li sobre o uso da música aliada ao tratamento médico;
“O efeito positivo da música na medicina em diversos artigos pesquisados, apresenta a música como importante aliada no combate dos agravos da saúde e parceira inseparável de uma medicina mais humanizada. Observou-se ainda, a ação da música de forma benéfica,  em crianças em pós-operatório de cirurgia cardíaca, em alguns sinais vitais (FC e FR), bem como, de forma subjetiva, uma redução na dor”, além de combater o stress, a ansiedade e problemas ligados a depressão infantil.
         Na virada deste século surge um  novo crescimento do interesse na ação da música na saúde infantil, em grande parte devido à ênfase dada à busca no auxílio em tratamentos ligados ao estresse infantil e a transtornos educacionais . Este crescimento foi definido por Leslie Bunt  Jornal of Music therapy", como: “o uso da música na obtenção dos objetivos terapêuticos (de restauração, manutenção e melhora da saúde mental e física)”. Este aumento do interesse é, em certa extensão, uma redescoberta da história do efeito terapêutico da música que tem sido utilizada de forma terapêutica, por séculos e existem numerosos exemplos dos poderes curativos e preventivos da música, em vários documentos históricos de diferentes culturas. Observando-se esta premissa e pensando nos bons resultados com a introdução de técnicas musicais em unidades de terapia intensivas pediátricas, neonatais, de adultos e unidades coronarianas , já observado por outros autores. Aliados ao conhecimento e uma pesquisa realizada no Estado de Pernambuco que 8  a 10 crianças nascem com doença cardíaca em cada 1000 nascidos vivos . O efeito terapêutico da música em crianças em pós-operatório  .  .  .  de 350.000 nascimentos ao ano, o que corresponde à cerca de 3500 casos novos de cardiopatias / ano com grande potencial para correção cirúrgica, resolvemos verificar de forma objetiva o efeito da música na Frequência Cardíaca (FC), Pressão Arterial (PA), Pressão Arterial Média (PAM), Frequência Respiratória (FR), Temperatura(T) e Saturação de oxigênio (Sat02) no pós-operatório imediato de crianças submetidas à cirurgia cardíaca e avaliar de forma subjetiva a ação da música no controle da dor em uma unidade de terapia intensiva exclusiva de cardiopediatria em conjunto com ações terapêuticas já usadas na prática médica convencional, além de realizar uma revisão vasta da literatura para um maior respaldo na realização do  mesmo. Na busca de tais objetivos é que esta  dissertação foi estruturada em dois artigos científicos: Um  artigo de revisão, onde foi realizada uma revisão da literatura sobre a música, na medicina, nos seus mais diversos aspectos, não como uma visão musicoterápica, onde o processo de criação musical com fins terapêuticos é a principal atuação, mas algo mais abrangente no ambiente de cuidado hospitalar para promoção da saúde e um segundo artigo em formato de artigo Original, onde foi realizado um ensaio clínico randomizado controlado por placebo para verificar de forma objetiva e subjetiva o efeito da música em crianças no pós-operatório imediato de cirurgia cardíaca em uma unidade  de terapia intensiva exclusiva de cardiopediatria. Estes artigos serão submetidos à publicação possivelmente nos periódicos: Jornal de Pediatria, Arquivos Brasileiros de Cardiologia e Heart and Lung. 
"A saúde é tão musical, que a doença não é outra
coisa, senão uma dissonância; e esta dissonância
pode ser resolvida pela música".
Boethius (480-524)



O EFEITO DA MÚSICA NA DOR

Esta é uma área que vem recebendo considerável atenção. Muitos estudiosos vêm avaliando o efeito da música na dor, através de medidas fisiológicas para dor, questionários de análise verbal, consumo de analgésicos, grau de ansiedade e/ou outros graus de distração. A maioria dos estudos diz respeito ao efeito da música na dor aguda,  seja durante ou após cirurgias, seja em procedimentos dentais, ou no parto . Alguns artigos falam da dor crónica, na maior parte em centros de tratamento de câncer. Updike, Heitz e Whipple e Glynn, estudaram o controle da dor através da música, mostraram uma diminuição da percepção da dor após o uso da musicoterapia . Updikemostrou que 2/3 dos pacientes admitidos tinham alguma forma de dor (emocional ou física) que após a musicoterapia todos experimentaram uma diminuição ou a ausência da dor. Heitz usava uma escala visual para medir a dor e o próprio paciente referia se tinha  mais ou menos dor, de acordo com a intervenção a cada 15 minutos da terapia. Ele demonstrou que a necessidade de analgésicos era significativamente maior nos pacientes sem musicoterapia do que com musicoterapia. Estes trabalhos demonstram que o uso da música como “um audioanalgésico”, em uma variedade de situações de dor aguda e crónica, tem um efeito positivo.


A MÚSICA COMO TERAPIA NO AMBIENTE ESCOLAR
A música como recurso terapêutico para o aluno hiperativo

Um dos desafios desde século da vida escolar, tanto para quem ensina como para quem aprende, são alunos diagnosticados com hiperatividade: alunos que não conseguem ficar quietos e tumultuam o ambiente, prejudicando a sua aprendizagem e a da turma. A partir da vivência com alunos hiperativos, percebeu-se a possibilidade da utilização da música com fins terapêuticos, centrada no auxílio à aprendizagem. As técnicas musicoterápicas utilizadas combinam o agir-fazer musical com a terapia, pois tal como é definido pela literatura, o campo de atuação da musicoterapia envolve a combinação dinâmica de muitas disciplinas destas duas áreas do conhecimento, que devem misturar-se para chegar-se a um objetivo profissional (BRUSCIA, 2000). Tem-se, de um lado, o fazer musical consciente e competente, com a devida noção do poder da música sobre os indivíduos, e por outro, técnicas de terapia.

A HIPERATIVIDADE EM CRIANÇAS

Os estudos apontam a hiperatividade como um transtorno neurobiológico de origem genética. Atualmente é catalogado na medicina sob o CID-10, com a denominação de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDA/H). É mais comum entre crianças e adolescentes do sexo masculino, e os seus sintomas podem estender-se até à vida adulta, porém mais brandamente. As características principais são: impulsividade e desatenção. Há pessoas que apresentam apenas a desatenção (Transtorno do Déficit de Atenção: TDA) e outras, cerca de 50%, demonstram também agressividade, comportamento mentiroso e oposição. Uma pessoa com TDA/H influencia o ambiente em que vive, geralmente negativamente: na família é sempre o responsável por situações embaraçosas; na escola é inicialmente bem aceito por ser agitado e brincalhão, porém, como também é competitivo e por não saber compartilhar, vai aos poucos perdendo as amizades (PHELAN, 2005). Algumas das consequências das citadas características é a baixa tolerância à frustração e a tendência ao isolamento, o que faz das pessoas com TDA/H seres humanos com baixa auto-estima.

O diagnóstico e tratamento para este transtorno devem ser feitos por uma equipa multidisciplinar que envolve a família, a escola, psicólogos, médicos e terapeutas. Atualmente, combina-se o uso de medicação (Psico estimulantes, que paradoxalmente agem aumentando a atividade cerebral, mas criando condições para que o cérebro do hiperativo mantenha um controle sobre a impulsividade, vigilância e atenção) com terapias comportamentais, artesterapias e a musicoterapia.
Partindo-se da verificação de que o aluno com TDA/H possui importante capacidade criativa e espontaneidade nas suas ações e que tais características são de grande valia no meio artístico, planeámos e desenvolvemos vivências musicais direcionadas à interação entre os participantes, à observação e avaliação de seus comportamentos, estimulando a sua participação e vibrando com os seus progressos, a fim de elevar a sua autoestima.

ATIVIDADES TERAPÊUTICAS MUSICAIS

Em uma sala com almofadas, aparelho de som, instrumentos musicais (violão, teclado e percussão variadas), material de desenho e pintura podem-se formar grupos com três alunos cada (Sugestão) , trabalhando-se por uma hora com cada grupo, uma vez por semana. As atividades musicais são realizadas visando a melhorar a atenção e a concentração dos alunos e a promover a socialização de todos
É necessário um planeamento de aula para realização de atividades , e jogos com instrumentos de percussão onde se procure despertar sincronia, pulsação, interatividade e leitura de partituras alternativas. As combinações sonoras levam à formação de parcerias entre instrumentos diferentes como forma de estimular a interação entre o grupo: chocalhos e tambores de diferentes timbres devem comunicar-se entre si, de forma a buscar a compreensão de que, tal como os instrumentos musicais, as pessoas também devem saber se comunicar.
Desenvolver a escuta atenta e direcionada de trechos de músicas selecionadas, a fim de sensibilizá-los musicalmente, é também uma atividade essencial dentro da musicalização. Em cada aula se propõem focar um ponto, uma análise da letra, uma melodia a ser estudada, porém com atividades variadas de curta duração (10 a 15 minutos) respeitando a pouca tolerância que o portador de TDA/H tem para se concentrar. A avaliação sobre estas atividades é feita durante todo o processo em que os pais, professores e orientadores são consultados sobre o desempenho e comportamento do aluno em sala de aula e no ambiente familiar.
São consideradas observações feitas com base nos trabalhos desenvolvidos por eles para a formulação da prática de musicalização, ou seja, o trabalho em conjunto com os pais e professores de outras disciplinas é primordial para que a criança consiga se desenvolver no ambiente educacional de acordo com seu ritmo de aprendizagem, podendo assim alcançar um extraordinário desempenho escolar e social com o auxílio da música como ferramenta terapêutica.

Ao se trabalhar com atividades de terapia musical e musicalização  com as crianças, é fato constatado e cientificamente comprovado o quanto esta  ferramenta  lúdica contribui para desenvolvimento escolar: na medida em que o aluno se interessa pelas atividades ele fica entusiasmado, começa a seguir comandos, e a cada acerto torna-se mais motivado, e assim, como num espiral ascendente a sua auto-estima vai-se fortificando.





REFERÊNCIAS   BIBLIOGRÁFICAS

BENENZON, Rolando. Teoria da Musicoterapia. 3ª ed. São Paulo: Ed. Summus, 1988. BRUSCIA, Kenneth E. Definindo Musicoterapia. 2ª ed. RJ: Enelivros. CONDEMARIN, M.; GOROSTEGUI, M; MILICIC, N; TDA: Estratégias para o diagnóstico e a intervenção psico-educativa. 1ª ed. São Paulo: Ed. Planeta, 2006. JEANDOT, Nicole. Explorando o universo da música. 2ª ed. SP: Editora Scipione, 1997. LELONG, Jean-Jacques S. Guy. As Obras-Primas da Música. 1ª ed. SP: Martins Fontes, 1992. NOVARTIS BIOCIÊNCIAS S.A. Com Desatenção e Hiperatividade não se Brinca. Livreto TDAH, SP. PAIN, Sara. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. 4ª ed. Porto Alegre, RS: Ed. Metrópole S.A, 1992

Artigo – Prof Marcos L Souza 
Pedagogo – Psicopedgogo – Educador musical – Historiador

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

O Poder dos Professores (Fátima Remédios)

É sempre emocionante falar e ouvir falar sobre Escola e Educação e ter a esperança de que haja vontade de melhorar, neste âmbito. 
Muitas vozes se fazem ouvir atualmente, manifestando o desejo de mudar o estado atual de coisas e salientando a urgência de abandonar, o quanto antes, um modelo de ensino obsoleto, inadequado e ineficaz. É importante, certamente, ministrar os conteúdos programáticos, zelar pela excelência a nível cognitivo e pela otimização dos resultados académicos. Contudo, muito mais importante é a formação do indivíduo como um todo, bem como o respeito pelo jovem que nasceu rodeado de estímulos tecnológicos variados e que, emocionalmente, nem sempre encontra, no atual sistema de ensino, um suporte que o ajude a gerir emoções, a sentir-se integrado e a potenciar as suas competências pessoais. Não que, atualmente, se tenha deixado de reconhecer a mais-valia que constitui para um indivíduo ter o melhor desempenho possível, no domínio cognitivo. Para singrar e “ter um lugar ao sol” no mundo adulto, o jovem tem de corresponder, o mais possível, de acordo com as suas capacidades, às exigências dos programas, das avaliações, dos requisitos das diferentes disciplinas. Todavia, a primeira e principal preocupação deve ser a da formação do indivíduo como um todo, como um ser humano íntegro, honrado, altruísta, de confiança, equilibrado, generoso, atento aos outros, com grande capacidade empática, compaixão, aceitação das diferenças, tolerância, piedade… bem como para a integração do aluno no espaço em que se move, a fim de que tenha a inteligência emocional e resiliência necessárias para se adaptar aos ritmos, exigências e oscilações constantes do mundo atual. 
O professor deve desejar formar e ajudar, portanto, alunos para que se sintam bem, felizes e motivados para aprender, em sala de aula, que estejam adaptados, sejam aceites, amados e felizes, neste mundo alucinante de videogames, internet, acesso fácil a tudo e a todos, de dificuldade em lidar com a frustração e com o não, de miúdos medicados, revoltados, angustiados, apáticos, de pais um pouco perdidos, apressados, aflitos, num mundo adulto muitas vezes caótico… que tenham, na sua escola, um ambiente e uma envolvência que lhes permitam fazer o contraponto de todo este tumulto do mundo exterior - e eventualmente interior. Há, hoje, jovens carentes e pobres, uma pobreza muitas vezes não material, mas emocional, à qual os sistemas educativos não têm dado resposta. Neste sentido, conquistar o afeto dos alunos, amá-los e compreendê-los, dar-lhes alegria, pode ser a chave para o sucesso das aprendizagens futuras. Mais, pode ser a chave para se ter, dentro de algumas décadas, adultos equilibrados, emocionalmente seguros e capazes de amar e ser amados. 
Estar atento ao bem-estar do aluno é essencial. Se este não estiver bem, não conseguirá reter nenhuma da informação veiculada; se não estiver calmo e estável emocionalmente, não conseguirá verbalizar tudo o que sabe… pode bloquear, fechar-se, desistir. 
Há um poder precioso, um poder que cada docente tem nas mãos. É incomensurável e incomparável ao de qualquer outro papel social, excetuando o de pai e mãe. É esse poder - essa enorme responsabilidade - de ajudar os adultos de amanhã A SER – aquilo que deve constituir a maior fonte de motivação de um professor e que deveria fazer com que a sociedade valorizasse e respeitasse mais este inigualável papel social. É essa responsabilidade que fez, e faz com que, apesar de tudo, jovens corajosos, hoje, queiram abraçar esta carreira cheia de desafios difíceis, com vontade de apostar nesta nobre e insubstituível carreira, que muitos consideram um privilégio e uma missão. 
É imprescindível continuar a acreditar, apesar do estado atual da educação, que temos nas mãos um tesouro inestimável: o de se poder, com o exemplo, postura e ensinamentos, ajudar a formar seres humanos honestos, bons e de confiança. Se se acreditar no seu lado bom, se lhes for dito que são bons, eles acreditarão e voarão. Nos dias de hoje, ouvimos sobretudo queixas, lamentos e críticas (justificados, tantas vezes, bem entendido…) da parte dos professores, quando se fala em educação e da carreira docente. É bem verdade que os professores têm sido, nas últimas décadas, massacrados, maltratados por alguns setores da sociedade, com a sua função excessivamente burocratizada, com o futuro instável, com a autoridade questionada… 
Todavia, há quem queira, queira muito (se calhar ingenuamente), acreditar que, um dia, aqueles que detêm o poder económico e político desejem refletir mais sobre esta questão e investir mais num assunto tão fulcral para a humanidade, nomeadamente apoiando mais as escolas – um investimento que se traduziria na redução do número de alunos por turma, na aposta em outras áreas da educação, que privilegiam a espontaneidade, a criatividade… a Arte, a Música, o Teatro, em áreas que favoreçam o fortalecimento da inteligência emocional… há tanto por fazer… Em conclusão, desejaria profundamente que qualquer professor, em qualquer parte do mundo, não perdesse de vista estas verdades, que consiga manter-se motivado, alegre e feliz, para os seus alunos, e que seja capaz de sorrir, acreditar, e de fazer sorrir os seus alunos. Que todos os que convivem com professores de alma e coração reconheçam o seu valor e os ajudem nesta missão, mais que não seja mostrando a sua empatia e apoio. Está tanta coisa em jogo…

Fátima Remédios, professora

sexta-feira, 24 de março de 2017

A nossa experiência em Singapura (Gracinha Viterbo)

Depois de três anos a viver em Singapura e a conviver com um ensino aberto, alegre e feliz, com respeito pelas crianças e pelas suas ideias, personalidades e tipos de inteligência (não o ensino oficial da Singapura, que é muito restritivo, mas o ensino das escolas internacionais, que juntam o melhor dos vários ensinos e tradições escolares à volta do mundo), voltámos a Portugal e tenho agora quatro crianças em casa em completo choque cultural e emocional com o ensino português tradicional... Vivemos de perto pequenos detalhes que fazem toda a diferença na construção de humanos felizes e motivados. Na Singapura vi os meus filhos apaixonarem-se pela leitura, ciências, matemática, artes e muitos outros temas. Parece uma utopia mas existe, é real e funciona.
Um exemplo: um piano deixado no recreio pelo professor de música, antes de as aulas começarem. Primeiro ninguém ligava ao piano, mas depois, dia após dia, não só as crianças se aproximaram como as que sabiam tocar acabaram por motivar as outras para a música. Pequenas medidas que espalham magia e motivam a aprendizagem...
Nas escolas internacionais da Singapura, as crianças são divididas por método de ensino, visual learners e textual learners: os visuais e os textuais. Os níveis num ano variam e também os dividem por níveis em matemática, língua, etc, e a leitura é o centro de tudo. A gramática não é dada isolada e pesada, é passada pela magia dos vários géneros de literatura. A escrita persuasiva é ensinada desde a pré. E os professores estão à porta da escola, com o diretor, todos os dias. Numa escola de 3000 alunos - não era pequena! - e professores em turnos, estes não deixavam de estar à espera dos alunos, de sorriso na cara. Eram os primeiros a motivar os alunos a estarem bem dispostos de manhã.
Quando lá cheguei senti-me uma extraterrestre e os primeiros meses foram de espanto por ver os meus filhos a adorarem ir à escola de uma forma nova, a adorarem estudar ao ponto de quererem ir à escola até ao sábado! Sim, a escola enche ao sábado porque os alunos querem... É um espírito comunitário, criam-se clubes e grupos que desenvolvem projectos ligados ao que estão a dar durante a semana, e fazem trabalhos baseados em projectos individuais e em grupo.
Agora, em Portugal, tenho o contrário, e é frustrante ver que pequenos passos fariam tanta diferença... Mas há um muro gigante chamado Currículo que trava tantos talentos e sonhos dos nossos filhos, neste país maravilhoso que temos aqui em Portugal, mas que tem um ensino esmagador e castrador...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Exemplo de uma Escola Diferente (Sofia Guerreiro)

Por vicissitudes da vida, a nossa família teve mudar em Agosto de 2016 de Lisboa para Barcelona e, por conseguinte, os meus filhos, de 12 e 8 anos, iniciaram, respectivamente, o 7.º e 3.º anos numa nova escola, num novo país. 
Passados 4 meses, é inevitável a comparação entre o programa e forma de ensino da escola que os meus filhos frequentavam em Portugal e o programa e forma de ensino da escola que frequentam agora em Espanha. Em comum, têm o facto de serem ambas escolas privadas. Para além da diferença linguística (que em Barcelona é um tema relevante, pois o ensino tem obrigatoriamente de ser em castelhano e em catalão, e no caso da escola dos meus filhos o ensino é trilingue – inglês, castelhano e catalão), deixo-vos algumas notas de relevo deste sistema: 
- ambos têm testes todos os meses de todas as disciplinas, ou seja, mais testes que em Portugal, mas com menor volume de matéria. O mais velho tem ainda exames finais a cada dois meses; 
- ambos são obrigados a estudar um instrumento, para além das aulas de música normais. Como os meus filhos nunca tinham estudado um instrumento à séria, têm uma aula extra por semana para poder chegar ao nível dos outros alunos que levam anos de ensino de música e instrumento intensivos; 
- o mais velho tem uma disciplina de empreendedorismo, que no 7.º ano é empreendedorismo social; - todos os alunos do 4.º ano em diante têm tablet obrigatório, no qual têm todos os livros e fazem trabalhos de casa. Têm um blogue para dúvidas entre colegas e professores; 
- as aulas de línguas do mais velho têm conteúdo de exercícios de duolingue através do tablet para praticar a língua em casa; 
- ambos têm objectivos de leitura mensais e de elaborar as respectivas fichas de leitura; 
- os últimos 30 minutos diários de aulas do mais novo são reservados para leitura em sala de aula; 
- o mais novo tem um dossier da criatividade, que consiste em textos que ele escreve subordinados a um tema à sua escolha ou que retira de uma caixa de títulos da sala de aula; 
- o mais novo tem natação curricular, para além da ginástica; 
- em ambas as salas, os colegas são incentivados a explicar uns aos outros as matérias que algum ainda não apreendeu; 
- ambos têm poucos trabalhos de casa: o mais novo, talvez uma ou duas vezes por semana, e o mais velho, pouco mais; 
- ambos têm de apontar tudo na agenda da escola: trabalhos de casa, trabalhos de grupo, testes, visitas de estudo, materiais a levar; 
- é proibido o uso de telemóveis dentro da escola: o mais novo nem sequer o pode levar para a escola e o mais velho está autorizado a levar mas não o pode ligar dentro da escola; 
- o ensino de religião não é obrigatório, mas quem não tem a disciplina de religião, tem a disciplina de ética. 
Não sei se este sistema é melhor que o sistema actual em Portugal, mas como mãe desde já vejo que ambos estão a ler muito mais e comentam mais as matérias dadas nas aulas, e as tardes depois das aulas são mais dedicadas a rever a matéria dada e não sob pressão de ter todos os trabalhos de casa feitos. 
Sofia Guerreiro

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Rap e(m) Português (Sílvia Neves)


Rap e(m) Português

Ensinar, hoje em dia? Desafio.

Ensinar em contextos sociais difíceis e instáveis? Grande desafio.

Motivar? Maior o desafio.

Ensinar crianças requer criatividade, motivação e gosto por aquilo que se faz.

Sou professora de Português do 2º Ciclo, numa escola da Damaia, e venho partilhar a minha experiência com uma das turmas com pior comportamento da escola. Devo dizer que, no início, apenas medidas bastante rigorosas funcionaram: estabelecer regras, consequências constantes do mau comportamento, muita exigência, tolerância zero. Dei-lhes capacidade de escolha: ou tinham aulas diferentes ou aquele regime continuava. Cansados do mesmo, chegou um dia em que alguns alunos pediram: “Por favor, Professora, queremos aulas diferentes, já não queremos estas aulas.”
A partir daqui, o sentido das regras manteve-se, mas comecei a experimentar introduzir a música nas aulas para abordar determinados conteúdos gramaticais e de vocabulário, já para não falar da exploração das próprias letras, que apelam ao sentido crítico dos alunos.
Foi muito positivo quando percebi que captava a atenção dos alunos com o estilo musical Rap. Fiz vários exercícios com as letras e a audição das músicas, que os alunos cantavam e depois tinham de fazer trabalho escrito. Foi contagiante a alegria e a adesão/entrega ao trabalho proposto. A concentração, o comportamento mudaram para melhor e proporcionou-se uma maior partilha. A intenção futura é até criar um trabalho multidisciplinar que utilize os estilos Hip Hop e Rap.
Já no ano letivo passado, numa das minhas turmas, a experiência tinha sido muito gratificante quando escrevi, juntamente com uma turma, uma letra para uma música anti-bullying, que foi alvo de composição musical. É incrível ver a motivação dos alunos quando sentem que constroem algo em conjunto com o professor e, mais do que isso, quando a atividade lhes fala diretamente ao coração. A música foi apresentada numa festa da escola e sei que é algo que eles não vão esquecer…
Com o passar do tempo, percebi que uma boa estratégia para captar alunos muito diferentes e com situações emocionais estáveis é levar para a sala de aula elementos que estejam diretamente ligados à cultura dos alunos e que fale a mesma linguagem deles. Nestes contextos socioculturais é importante que se abordem temas como as injustiças sociais, a violência, os valores humanos, a desvalorização do negro na sociedade, as drogas, entre outros. A diversidade cultural é muito grande e pode ser bem explorada nas aulas, por intermédio de atividades de interpretação. Utilizei artistas da língua portuguesa, como Boss AC e Gabriel O Pensador.
No fundo, com este tipo de aulas, pretende-se que os alunos não percam o fio dos conteúdos a serem trabalhados/estudados e, ao mesmo tempo, que tenham uma aprendizagem de qualidade e que proporcione o seu desenvolvimento integral.
Apesar de tudo, estas estratégias não são infalíveis e há que saber adaptar aos momentos e “ler” a turma. Nem sempre funciona da mesma maneira. Continuo a ter alturas de desânimo, dias difíceis, mas o que importa é nunca parar de tentar inovar.

Por fim, partilho a música de Boss AC cuja letra trabalhei na época do Natal, em 2016. A letra é fantástica!
https://www.youtube.com/watch?v=Q9uT-ZIMVTE

Sílvia Neves
Professora de Português 

domingo, 22 de janeiro de 2017

É urgente Mudar a Escola... (Jainete Massuça)


É urgente Mudar a Escola...
Como professora de 1º ciclo faz vinte anos, sinto a necessidade urgente de mudar a Escola.
Vivemos numa sociedade em constante transformação, onde a um ritmo cada vez mais acelerado se verifica constante evolução a todos os níveis. A educação não deverá ser exceção.
A sociedade evoluiu e a escola continua desde há muito estagnada.
Será esta educação que temos a que na realidade queremos?
Não me parece... Devemos todos juntos colocar um ponto final para o modelo de ensino, ainda tradicional e dominante no país, um modelo que ainda insiste em produzir e reproduzir a cultura do fracasso e da exclusão.
A verdadeira e única RESPONSABILIDADE de cada ser humano e de cada pessoa/aluno/professor é manifestar-se como SER ÚNICO, ter e defender ideias próprias guiadas por regras e civismo que deverá estar presente, e ligados ao Todo.
A ESCOLA deve ser um espaço/contexto de desenvolvimento de competências generalizada, sendo esta a ESCOLA que chama por nós: educadores, professores, pais e toda a comunidade educativa envolvida.
Como tal, e defendendo uma fórmula para mim de extrema importância, que elaborei exclusivamente para este contexto educacional, no qual assento toda a minha experiência enquanto aluna/professora e mãe...
Todos nós devemos ter a capacidade de colocar em prática a sabedoria que obtemos, superando assim tudo o que nos surgir no dia a dia.
Prática + Sabedoria = Superação
Se conseguirmos “olhar com olhos de ver”, todos percebemos que nos aos 70/80 as crianças saíam de suas casas para a escola, onde aí adquiriam conhecimentos. Muitos deles não tinham livros e poucos conhecimentos detinham as suas famílias, que se dedicavam exclusivamente ao trabalho diário. A escola era sem sombra de dúvida o local onde se ia beber conhecimento e conviver com os demais.
Atualmente as crianças possuem uma quantidade enorme de saber. Convivem diariamente com as redes sociais, com tecnologia em casa e com uma quantidade enorme de meios para obter diversos conhecimentos. Os nosso alunos/crianças são “diferentes” dos alunos/crianças de alguns anos atrás. A escola está idêntica e os alunos olham para a escola como um lugar desmotivador e mais do mesmo, muitos deles não tomam atenção à aulas , pois vão voltar a ouvir saberes que já possuem... Devemos ser nós, escola, a adaptar-nos a estes novos alunos. Arranjar estratégias para os motivar e a arrumar nas suas gavetas da memória o conhecimento adequado. Ajudar os alunos a estruturar o que já sabem e, acima de tudo, ensinar a pensar.
Lutando todos os dia que me levanto para uma Escola Melhor, Motivadora e Rica, construí dois projetos com a minha turma.
No primeiro projeto que intitulei “PROJETO PILOTO sobre Dificuldades de aprendizagem nos alunos/psicologia positiva/pais, alunos e professores na escola de hoje”, estruturado em três momentos do ano letivo - primeiro, segundo e terceiro período - onde os pais da turma são convidados a participar num dia na escola com os seus filhotes e professores, e debater ideias.
Neste primeiro encontro tive a honra de ter como professor convidado um amigo de excelência, Dr. Jorge Rio Cardoso, que veio falar aos pais sobre as aprendizagens dos alunos e esclarecer alguns temas sobre a educação.
Posteriormente, decorreu um almoço partilhado com todos os presentes e uma atividade dinamizada com a Fundação Eugénio de Almeida, onde os pais e filhos desenvolveram uma atividade conjunta “Baú de memórias” e participaram numa visita ao Museu com os seus educandos. Para terminar, realizámos uma prova de vinhos, todos juntos, Professora titular, professores coadjutores, pais e filhos na adega da Cartuxa. Os mais pequenos tiveram oportunidade de provar o azeite.
Quando apresentei o projeto ao Colégio, este aceitou-o de imediato. Nem sempre foi fácil, tudo isto dá trabalho e implica motivar a escola, pais e alunos. Mas no final o feedback foi muito, mesmo muito positivo, uma vez que, para além dos pais da minha turma, também convidei entidades oficiais da cidade e diretores de escola que me deram os parabéns pelo projeto de excelência que está a ser dinamizado.
Neste projeto existe uma envolvência entre pais/alunos e professores, assim como toda a comunidade educativa. Aprendemos todos... aprendemos mais com a prática e o debate de ideias, convivendo e criando laços entre todos.
 Teremos mais dois momentos até ao final do ano letivo semelhantes a este…
Não se pode parar, e desistir faz parte dos fracos. Como tal, e seguindo as metas de aprendizagem emanadas pelo Ministério da Educação, resolvi estruturar um projeto e convidei a colega do grupo/ano para o desenvolver também.
O projeto nomeia-se “Vamos conhecer as instituições da Cidade” e faz parte do programa a ser desenvolvido durante o mês de janeiro com os alunos do 2º ano. Entrei em contato com a Câmara Municipal de Évora, P.S.P., Bombeiros e Hospital. Como tal, e abraçando desde logo o projeto, três instituições responderam positivamente e desenvolveram uma atividade para ser realizada no âmbito do conhecimento das mesmas.
A Câmara Municipal nomeou o seu subtema como “Do lado de cá” e estruturou o projeto para que outras turmas pudessem também desenvolvê-lo. A P.S.P criou o subtema “Vamos ser polícias por um dia” e os alunos estiveram fardados na cidade de Évora a trabalhar com os agentes da P.S.P, realizaram um panfleto em sala de aula que distribuíram e um questionário aos automobilistas que irão analisar em contexto de sala de aula, realizando gráficos e contagens. No hospital de Évora vamos à parte da pediatria observar o dia a dia das enfermeiras e médicos e conhecer um pouco a instituição.
No final do projeto vamos mostrar o trabalho que foi feito a toda a comunidade Educativa, inaugurando uma exposição com maquetas, fardas e instrumentos das referidas instituições, realizadas pelos alunos, pais e professores.



Para mim, assim deve ser a escola, mas esta escola tem que mudar e todos devemos seguir e lutar para que o modelo atual faça parte do passado e da história de um povo.
Não é fácil... encontro muitos obstáculos, muitas pedras no caminho... mas vou seguir dentro daquilo que me possibilitam o modelo, procurando a Escola que, a meu entender, deverá ser o melhor para os meus alunos, os homens e mulheres de amanhã, que não devem viver amarrados e encostados à sombra da azinheira.
  Acredito que Vamos Mudar a ESCOLA... Mudar será a necessidade urgente pela qual todos juntos devemos lutar...
Quero uma escola onde alunos, professores e pais se sintam felizes , motivados e com a capacidade de ACREDITAR SEMPRE.

Professora Doutora Jainete Massuça